DIÁRIO, O BRAÇO “DIREITO” DO GRANDE ABC

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Jefferson José da Conceição (jeffdacsenior@gmail.com)

Nas universidades brasileiras, há inúmeros trabalhos que ainda estão “escondidos” nos escaninhos das bibliotecas. Alguns são pouco conhecidos porque à época não tiveram plena divulgação na comunidade acadêmica, ou/e porque foram publicados anteriormente à internet ou porque a rede apenas “engatinhava”. Somente aos poucos esses trabalhos estão sendo disponíveis virtualmente à consulta e ao debate público – mesmo assim, quando alguém descobre e dá o devido valor à obra.

É o caso da excelente dissertação de mestrado de Celso Antunes Horta, defendida em 2003, no Programa de Mestrado em Administração, com a concentração em Regionalidade e Gestão, do IMES (hoje USCS) de São Caetano do Sul. A pesquisa de Horta teve a orientação do Prof. Dr. Jeroen Johannes Klink, especialista em questões de Desenvolvimento Econômico Regional e de Planejamento Urbano.

Na dissertação intitulada “O Braço ‘Direito’ do Grande ABC: um estudo de caso do Diário do Grande ABC e sua inserção na Regionalidade e nos Conflitos das Relações de Trabalho”, de 226 páginas, o jornalista Celso Horta – que foi um dos fundadores do ABCDMaior e um dos seus primeiros editores – faz uma investigação profunda do papel político exercido pelo jornal Diário do Grande ABC no jogo de forças da política desta região. Horta põe em evidencia a postura constantemente avessa do Diário aos movimentos sociais e sindicais. Esta postura do jornal leva o autor da dissertação a trabalhar com o duplo sentido da expressão “braço direito do Grande ABC”, por meio da utilização das aspas sobre a palavra direito.

Embora já tenham transcorridos mais de treze anos desde sua publicação, o referido trabalho continua atualíssimo.

Horta destaca a importância que a mídia exerce na sociedade contemporânea, que bem poderia ser chamada de “sociedade informacional”, já que é caracterizada pela volumosa e ininterrupta circulação de informações por meio das várias vias de comunicação existentes: TV, Rádio, internet e redes sociais (mais recentemente) entre outros veículos. Para o pesquisador, isto por si só faz crescer a necessidade de novos trabalhos sobre a mídia, sobretudo os que focalizam as relações entre a mídia e os fenômenos sociais. Esta necessidade é ainda maior quando o tema é mídia regional.

Celso Horta desenvolveu sua pesquisa com base na teoria marxista, adotando a dialética como método de análise. “De acordo com o materialismo dialético, toda realidade social encerra contradições, cuja síntese resulta no próprio movimento da história. Nas últimas duas décadas [1980-2003], além das pressões provenientes da economia internacional e das medidas adotadas pelos governos federal e estadual, o Grande ABC esteve envolvido na problemática da crise local, da reestruturação produtiva nas fábricas e do cotidiano das relações entre atores e instituições locais”.

Utilizando as categorias de hegemonia e contra-hegemonia do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937), Horta procurou debruçar-se sobre a compreensão e o comportamento do Diário do Grande ABC em uma situação específica, que foi o conflito ocorrido nos meses de outubro e novembro de 2001, e que envolveu a empresa fabricante de veículos Volkswagen e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC – dois ícones e quase-sinônimos de Grande ABC.

O trabalho baseou-se em levantamento qualitativo de dados. Entretanto, o autor fez também esforço adicional visando classificar e quantificar o conjunto de representações encontradas no discurso do Diário durante o período pesquisado. Foram analisadas 61 edições do Diário durante o período do conflito. A análise estruturou-se no conteúdo dos títulos de capas, editoriais e artigos assinados.

Sindicalismo e “Custo ABC” na visão do Diário

Para Horta, “o estudo da formação discursiva do Diário durante o referido conflito entre capital e trabalho evidenciou a falácia do mito da imparcialidade e neutralidade com que o jornal faz sua autopromoção. A descrição / interpretação da cobertura dia a dia do conflito mostrou que o discurso do Diário, identificado pelo slogan publicitário de “braço direito do ABC”, na verdade esconde o pensamento hegemônico da mídia conservadora. Um discurso que bombardeia o mundo diariamente com suas verdades definitivas sobre a primazia do mercado e o do status quo a ele associado e que, no plano regional, centra sua ação no combate às posições que buscam fortalecer as administrações populares locais e as instituições representativas dos interesses do trabalho. Assim, os sindicatos foram eleitos, pelo discurso hegemônico, como uma das razões das mazelas que afetam a civilização e um dos fatores do “custo ABC”. Por isso, eles estão no centro da ação fiscalizadora do Diário”.
Acrescento três observações às considerações feitas por Celso Horta neste parágrafo anterior:

A primeira observação consiste em chamar a atenção para o fato de que o Diário do Grande ABC, além de se definir como “braço direito” da região, também busca reafirmar seu compromisso com a imparcialidade e se julga como legítimo representante dos moradores locais (!). Isto fica explícito, por exemplo, em editorial do último dia 2/4/2016, quando o jornal disse: “Ao longo de seus 57 anos de existência, o jornal Diário do Grande ABC carrega um histórico de compromisso com a verdade dos fatos, com a imparcialidade e, principalmente, com o seu leitor. O maior jornal regional do País é o principal porta-voz dos legítimos interesses dos moradores de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra (…)”. Esta autodeclaração de representatividade regional está longe de ser um consenso entre as instituições e os moradores da Região do Grande ABC.

A segunda observação é que o discurso do “custo ABC” foi construído em conjunto pelo Diário e por parte das representações empresariais locais e regionais (como a FIESP/CIESP). Trata-se de um discurso fácil de transmitir já que os custos salariais da região, para as mesmas funções, são de fato mais altos do que de muitas outras localidades do País. Mas este discurso não contribui para o entendimento completo do fenômeno. Para isto, seria necessário comparar os custos mais altos com a produtividade que também costuma ser mais alta na Região do ABC, conforme reconhecem muitos dos próprios empresários.

Minha terceira observação: em nenhum momento o Diário do Grande ABC dá o devido valor ao papel dos Sindicatos do ABC (com destaque para o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC) na formulação, mobilização e negociação das Políticas Públicas locais, regionais e nacionais, bem como na temática da modernização negociada das empresas. São vários os exemplos do papel de protagonismo exercido pelo Sindicato: Câmara Setorial Automotiva (1992-1993), Acordos Inovadores no campo da reestruturação produtiva (anos de 1990), Acordos de Participação nos Lucros e Resultados; Negociações para a constituição da Jornada Flexível; Constituição da Câmara Regional do ABC e Agência de Desenvolvimento Econômico, entre muitos outros exemplos.

Discurso dividido, contraditório

Voltemos à pesquisa de Horta. O autor aponta para a divisão do Diário do Grande ABC em sua ação comunicacional. “De um lado, em alguns momentos, o Diário busca claramente fortalecer o território e suas instituições regionais – o Consórcio Intermunicipal, a Câmara Regional, o Fórum da Cidadania e a Agencia de Desenvolvimento Econômico. Nestas oportunidades, o Diário dispõe-se, formalmente, a ajudar na elaboração de diagnósticos e implementação de planos conjuntos de revitalização regional e na aproximação entre o poder público e os representantes de sindicatos, associações empresariais, universidades e outros atores sociais. De outro lado, apesar do discurso de independência e autonomia, diante dos conflitos que assolam permanentemente as relações entre capital e trabalho (inerentes ao capitalismo, diga-se), o Diário quase sempre assume uma posição hostil ao sindicalismo”.

Neste ponto, faço um pequeno ajuste na conclusão de Horta exposta no parágrafo anterior. Após 2003 (ano de apresentação do trabalho de Horta), verifica-se que, mesmo no que se refere às instituições regionais como Consórcio Intermunicipal e Agência de Desenvolvimento Econômico, o Diário adota postura bastante crítica e por vezes hostil, via de regra quando estas entidades são comandadas por gestores ligados ao PT e ao sindicalismo.

De certa forma, tratei desta questão da hostilidade em relação aos Governos do PT, no artigo de título “Lentes Turvas”. Neste artigo, publicado no ABCDMaior, em 8 de janeiro de 2015, mostrei o tratamento extremamente negativo que o Diário dá quando trata da cobertura do Governo do Prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, não obstante o volumoso conjunto de obras e transformações vividas pela Cidade durante as duas gestões do Prefeito. Posteriormente, em parceria com mais três autores, publiquei livro – “A Cidade Desenvolvimentista: crescimento e diálogo social em São Bernardo do Campo, 2009-2015”, publicada pela Editora da Fundação Perseu Abramo no final de 2015 (disponível gratuitamente no site da Fundação) – no qual este volume de realizações é exposto em detalhes.

O “braço direito do ABC” não conseguiu perceber as mudanças no eixo de forças da política regional
Em sua pesquisa, Horta buscou retomar a história da fundação e crescimento do Diário do Grande ABC, para mostrar que, a partir de determinado momento, ocorre um desencontro entre as posições do Diário e o novo eixo de forças na Região do ABC.

“Ambientado no Grande ABC, o Diário cresceu identificado com a indústria automobilística e viveu a condição de porta-voz privilegiado do que então era considerada a “Detroit brasileira”. No final dos anos de 1970, no entanto, o “milagre econômico” da Ditadura dava sinais de esgotamento. O Brasil começava a ensaiar novos rumos para seu futuro. Neste quadro, o Grande ABC projeta-se nacional e internacionalmente a partir de uma nova alternativa de poder político que nasce das lutas sindicais do final da década.

A partir da década de 1980 e, sobretudo, na década de 1990, o modelo vertical de concentração industrial na Região esbarra em limites físicos e em fatores de competitividade negativos. O Grande ABC começa a enfrentar um período de turbulências econômicas e sociais. A crise regional (com reflexos no emprego, fechamento de fábricas, queda da arrecadação, perda de qualidade de vida) leva ao surgimento na região de um novo bloco político, composto por atores e instituições sociais historicamente marcados por uma posição contra-hegemônica e identificada com o espectro ideológico de esquerda.

O objetivo que se coloca para este bloco é o fortalecimento da regionalidade e dos projetos de revitalização local. Ao que parece, o “braço direito do ABC” não conseguiu perceber que o eixo das forças da política regional estava mudando de posição. O resultado é a dualidade que esta pesquisa aponta na cobertura do conflito entre capital e trabalho ocorrido no final de 2001.
A ameaça de fechamento da fábrica da Volkswagen na região, publicada no momento mais delicado do conflito, em uma clara “chantagem” contra o sindicalismo, e o editorial do dia seguinte, chamando a atenção da Volkswagen e do Sindicato para suas responsabilidades sociais – são exemplos claros do posicionamento contraditório do jornal. Uma ação comunicacional que, longe de contribuir para a constituição de um projeto regional de desenvolvimento econômico equilibrado e sustentado, apenas ajuda a reforçar as externalidades negativas da Região”.

Importância da Comunicação para o Sucesso da Ação Regional

Horta chama a atenção para o fato de que os autores que estudaram as experiências contemporâneas de revitalização de regiões em crise – como é o caso do Grande ABC – são unânimes em apontar a importância da comunicação para o sucesso destes projetos. Assim, uma das recomendações que ele (Horta) é que se busque construir instrumentos de comunicação capazes de promover uma cultura de unidade regional, baseada no consenso e na legitimação das diferenças, em torno de um projeto de desenvolvimento econômico e social sustentável.

Para Celso Horta, “a temática teórica do ‘novo regionalismo’ demanda o acúmulo de novas reflexões e pesquisas. Alguns dos trabalhos realizados no próprio laboratório de Regionalidade e Gestão apontaram para a necessidade de um aprofundamento entre as questões regionais e suas relações com as forças “externas” impostas pelas tendências internacionais e pelas políticas derivadas do poder central”.

Uma outra carência do novo regionalismo, para Horta, seria a de “um diagnóstico mais sistemático da tensão entre os processos cooperativos locais e os conflitos permanentes de grupos de interesse e de classe, mediados pelo grande poder que exerce a mídia em todo este processo”.

A pesquisa de Celso Horta parece ter antevisto o enorme e decisivo peso que a comunicação exerceria no jogo das forças políticas locais, regionais e nacionais. Diz ele em sua conclusão:

“Esta pesquisa aponta também a importância de investigar as relações entre o poder do pensamento conservador hegemônico, em nível nacional e internacional, e o poder do pensamento contra-hegemônico que, nos territórios, pode estar identificado com ideais da esquerda democrática. É o caso do Grande ABC, onde, hoje, este bloco domina os espaços do poder público local, ocupando [à época] cinco das sete prefeituras da Região. Esta disputa, que, segundo Gramsci, é permanente, tende, na atual conjuntura do País, a favorecer ainda mais o bloco regional contra-hegemonico. Nesta medida, portanto, aponta para uma perigosa radicalização da disputa ideológica representada na mídia, colocando em risco os objetivos e projetos voltados para a revitalização do Grande ABC”.

Como Professor e Gestor Público, minha recomendação é que o trabalho de Celso Horta seja lido, interpretado e debatido, estimulando novas contribuições. Uma atualização do autor, especialmente referente ao comportamento do Diário em face das gestões populares petistas (com destaque para a de Luiz Inácio Lula da Silva, em âmbito nacional, e de Luiz Marinho, em âmbito municipal e regional) seria também bem-vinda, visando uma futura publicação da dissertação em forma de livro, como convém para trabalhos tão importantes e valiosos como esse.

Jefferson José da Conceição é Prof. Dr. da USCS e Atual Diretor da Adesampa. Foi Secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo de São Bernardo do Campo entre janeiro de 2009 e julho de 2015. Criou e dirigiu o APL de Defesa do Grande ABC no período.jefersondac@ig.com.br

Artigo publicado no site do ABCDMaior (www.abcdmaior.com.br), coluna blogs, em 4/4/2016.

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