“GUIA DE COMPRAS SAMPA”: APENAS UM APLICATIVO OU UMA AGENDA DE COOPERAÇÃO?

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Jefferson José da Conceição (jeffdacsenior@gmail.com)

As Ruas 25 de Março e Santa Ifigênia, os Distritos do Brás e do Bom Retiro e o Mercadão Municipal são lugares de comércio bastante conhecidos na Cidade de São Paulo. Juntamente com outras áreas importantes do entorno, eles formam o maior centro comercial da América Latina. Guardadas as devidas proporções, o mesmo simbolismo de pujança comercial também se verifica na Rua Jurubatuba, no centro de São Bernardo do Campo. Esta rua é o maior shopping de móveis a céu aberto do país. Entre as características comuns de todas estas áreas estão a presença de grande contingente de consumidores e a existência de forte concorrência entre os lojistas, é claro. Entretanto, indo além, o que mais há em comum entre essas áreas comerciais?

Este artigo procura mostrar que juntos os cinco mencionados lugares paulistanos e a Rua Jurubatuba no ABC Paulista são exemplos concretos de como o Poder Público local pode, em parceria com as associações comerciais e outros atores e instituições envolvidas, promover processos cooperativos que resultem no incremento dos negócios, geração de renda e empregos. Mais ainda: que esta aproximação entre gestão pública, atores e instituições faz emergir um “capital social” local que, se levado adiante e potencializado, pode, como consequência, gerar novas ações cooperativas em prol do desenvolvimento local. Isto é positivo para as empresas, os consumidores e a cidade como um todo.

No caso das ruas do centro da maior cidade da América Latina, o caso de cooperação a ser tratado é o que deve resultar a partir do novo aplicativo público denominado de “Guia de Compras Sampa”, que permitirá melhor organização pelo consumidor que realiza o turismo de compras naquelas áreas. Isto porque o Guia de Compras não será apenas um aplicativo eletrônico. A partir do seu sucesso, ele poderá ser o catalisador de processos de parcerias entre gestão pública e setor privado para a construção e execução de políticas conjuntas que visem fortalecer o comércio no centro da cidade. Este aplicativo será lançado a partir do próximo dia 25 de agosto.

No que se refere ao ABC Paulista, o caso tratado é o da Feira de Móveis da Rua Jurubatuba. Cabe dizer que até 2009 eram praticamente inexistentes ações articuladas entre a Prefeitura de São Bernardo e os lojistas da rua. Não existiam sequer ações significativas que envolvessem a cooperação entre o próprio setor privado. O isolamento e a desconfiança recíproca eram grandes, com reflexos na queda das vendas até então verificada. Isto começou a mudar efetivamente com a política de cooperação entre a Prefeitura e os lojistas, posta em curso a partir de 2009, e que resultou na Primeira Feira de Móveis da Rua Jurubatuba em 2010, e mais cinco edições da feira até 2015. Retomaremos esta experiência mais adiante.

1) O primeiro exemplo de política de cooperação: o Guia de Compras Sampa

O Guia de Compras Sampa é um aplicativo desenvolvido pela Agência São Paulo de Desenvolvimento – ADESAMPA, em conjunto com a Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo da Prefeitura de São Paulo.

O Guia foi criado para facilitar o conhecimento dos turistas e da própria população sobre os estabelecimentos de comércio em toda a Cidade de São Paulo e seus respectivos produtos e serviços. Ele também propicia uma organização mais eficiente do roteiro de compras pelos consumidores.

O Guia de Compras Sampas será lançado com a área que representa o maior turismo de compras do País, que é a parte do centro de São Paulo composta pelas regiões da Rua 25 de março, Brás, Santa Efigênia, Bom Retiro e Mercado municipal.

Em breve, outras importantes regiões de comércio da Cidade, inclusive do centro, deverão ser incorporadas ao aplicativo.

O aplicativo, que é público e gratuito, já parte com uma quantidade inicial de 1.000 estabelecimentos cadastrados, mas tem potencial de mais de 10.000. O cadastramento deste potencial ocorrerá por adesão voluntária dos lojistas, conforme orientação que se segue.

Os lojistas formais das mencionadas áreas que tenham o interesse de incluir seu estabelecimento no aplicativo deverão acessar o site www.guias.adesampa.com.br e preencher todos os dados solicitados no site.

Para acessar o aplicativo, é necessário acessar o Play Store ou o Apple Store e fazer o download do aplicativo Guia de Compras SAMPA.

O objetivo imediato da Agência São Paulo de Desenvolvimento e da Prefeitura de São Paulo com este guia é promover o desenvolvimento do comércio e dos serviços da Cidade de São Paulo, por meio de utilização de instrumentos modernos, atualizados e interativos de difusão de informações.

Entre as entidades parceiras do Guia Sampa de Compras estão a UNIVINCO – União dos lojistas da Rua 25 de Março e Adjacências; a Câmara de Dirigentes Lojistas – CDL da Santa Efigênia; a CDL – Entidade Oficial dos Lojistas do Bom Retiro /Bom retiro na Moda; a ALOBRÁS – Associação de Lojistas do Brás; e a Associação Comercial de São Paulo.

Dessa forma, o cidadão e o turista (esteja este em Sampa a negócios, para entretenimento ou por qualquer outro motivo) terão em mãos um aplicativo eletrônico para suas compras, inicialmente em seis regiões centrais de grande densidade comercial e mais à frente no conjunto do território paulistano.

Registre-se que nos próximos 36 meses prevê-se a implantação do “Circuito de compras” – projeto encabeçado pela Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo da Cidade de São Paulo. O Circuito é o objeto da concessão de uso área do centro, por meio de licitação, para a construção de um shopping popular de compras na região do Pátio do Pari (onde se encontra hoje a chamada Feira da Madrugada), hotel, estacionamento para 320 ônibus e vans e quatro centros de apoio ao turista de compras nas principais ruas do polo comercial do centro da cidade.

De maneira mais estruturante, o aplicativo Guia de Compras Sampa e o Projeto “Circuito de Compras” criam todas as condições para o surgimento de um capital social local e a construção de uma agenda de trabalho em prol de ações conjuntas entre gestão pública e setor privado no centro. Voltaremos a este ponto mais adiante.

2) O segundo exemplo de política de cooperação: a Feira de Móveis da Rua Jurubatuba

A Feira de Móveis da Rua Jurubatuba esteve entre as principais realizações do Arranjo Produtivo Local (APL) Moveleiro do Grande ABC constituído pela Prefeitura de São Bernardo do Campo, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo da cidade, a partir de 2010, no formato tríplice hélice, com a participação da Gestão Pública, empresários da indústria, lojistas de móveis, poder público e universidades.

O autor deste artigo pôde estar a frente desta rica experiência, pois era o então Secretário Municipal desta já citada pasta (cargo que exerceu entre janeiro de 2009 e julho de 2015). Esta importante política de parceria envolvendo gestão pública e iniciativa privada, que foi a Feira de Móveis da Rua Jurubatuba, foi relatada em nosso livro “A Cidade Desenvolvimentista” – escrito por este juntamente com mais três autores – e lançado ao final de 2015 pela Editora da Fundação Perseu Abramo. Reproduzo a seguir trecho deste livro sobre a Feira de Móveis:

“A Rua Jurubatuba tem sua história associada com a própria trajetória de São Bernardo do campo, desde os áureos tempos da indústria de móveis nas primeiras décadas do século XX até os dias de hoje, de mercado global. Agora são quase 80 lojas, com 60 mil m2 de exposição de móveis e produtos de decoração. Uma rua sem igual no país. (…) Os objetivos da feira são três, em particular: a) fomentar as vendas; b) incentivar a unidade e o associativismo entre os lojistas; c) gerar a semente de futuras ações conjuntas entre a gestão pública e os lojistas, em benefícios do comércio local e da cadeia produtiva moveleira (…)

Durante a feira, observa-se o alargamento de calçadas, proporcionando maior conforto para os clientes. Há também decoração especial ao longo dos dois primeiros quarteirões da rua, com a instalação de áreas de jardins, nos quais são instalados bancos, fontes e murais com a história do setor moveleiro. Há ainda iluminação especial, sonorização, praça de alimentação e vários eventos artísticos. Estacionamentos credenciados são indicados para os clientes.

Entre os grandes números das feiras estão: 75 lojistas participantes; 60 mil m2 de área de exposição; 50 mil visitantes por edição; aumento de 50% nas vendas; estima-se um faturamento de R$ 18 milhões por edição.

Pode-se dizer que estes resultados, combinados com a liderança da Prefeitura, refletiram-se na gradativa redução da desconfiança entre os empresários do setor, bem como entre estes e a gestão pública. Na medida em que os lojistas foram percebendo a determinação governamental em apoiar o setor, houve uma resposta gradativa, que se traduziu, por exemplo, no investimento privado em várias inserções publicitárias na Rede Globo e em outros órgãos de comunicação. Um dos resultados desta parceria é que as feiras de móveis da Rua Jurubatuba já entraram no calendário anual do setor. E o que é também importante: conforme determinação da Prefeitura, as feiras de móveis estão gradativamente buscando sua autossustentabilidade em termos de custo de realização (especialmente por meio de patrocínios), com a consequente redução de empenho de recursos públicos.

Nas várias reuniões ocorridas entre a Prefeitura e os lojistas de móveis da rua, a Prefeitura procurou destacar que a execução de obras de macrodrenagem nas ruas do centro, que vão resolver a questão das enchentes na Jurubatuba. Neste momento, as obras estão em curso”.

Registre-se, por fim, que a Feira de Móveis da Rua Jurubatuba poderia reproduzir o exemplo do Guia de Compras Sampa e criar um aplicativo que também servisse como um instrumento a mais de fomento à visitação e incremento de vendas.

3) A emergência do “Capital Social” como fator de Políticas de Cooperação e Desenvolvimento Local

Para entender em sua plenitude a dimensão das ações aqui levantadas – o Guia de Compras Sampa e a Feira de Móveis na Rua Jurubatuba – é importante, mesmo que brevemente, retomar o conceito de capital social. Tratamos deste tema em alguns dos artigos recentes deste blog do ABCDmaior. Um desses artigos intitulou-se “Crise e Destruição de Capital Social no Brasil”, publicado em 28 de abril deste ano.

No referido artigo, enfatizamos que, nos últimos anos, tem crescido o interesse de acadêmicos, organismos internacionais de fomento e policy makers sobre a questão das relações entre desenvolvimento local e fatores não econômicos – isto é, variáveis que se situam no plano social, cultural e político. Esses estudos almejam demonstrar que desenvolvimento é função não apenas de medidas econômicas tradicionais (como a oferta de crédito, infraestrutura, incentivos fiscais e investimentos em maquinários), mas também de certos valores, crenças, normas e processos sociais etc. É o que muitos estudiosos denominam de “capital social”.

Um dos estudos de maior repercussão no campo do capital social foi o de Robert Putnam, intitulado “Comunidade e Democracia: a experiência da Itália Moderna”, de 1993. Esse estudioso americano procurou identificar os elementos que influíram nas diferenças de desenvolvimento entre as regiões do norte e do sul da Itália. O autor diagnosticou que o sul da Itália preservou, desde o fim da Idade Média, uma cultura autoritária, o que fez com que as relações sociais nesta região fossem mais hierarquizadas, verticalizadas, menos favorável à cultura da confiança e colaboração. Em sociedades com estas características, as pessoas se fechariam mais em círculos familiares ou muito próximos, e são menos dispostas a se relacionar de forma colaborativa com outros grupos da comunidade. Por seu turno, no norte da Itália o processo se deu de forma bem diferente. As tradições democráticas aí verificadas favoreceram as redes de relações pessoais do tipo horizontais, não hierarquizadas, estimulando o associativismo e a colaboração.

Ao descrever o caso italiano (um dos mais estudados da literatura), Putnam concluiu que existe uma forte relação entre descentralização, democracia participativa e eficácia econômica – fatores que estavam presentes no caso do norte da Itália, a região de maior desenvolvimento.

Para Putnam, o capital social é conceituado pela série de “características da organização social, como confiança, normas e sistemas que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas”. Ou seja, a ideia de capital social abarca noções como participação da sociedade civil na gestão pública, controle social, civismo e cooperação. (…)

Nesse sentido, dá-se grande ênfase, no conceito de capital social, às redes de relações interpessoais e aos valores e sentimentos, como confiança mútua.

De acordo com a teoria do capital social, aspectos da vida cotidiana de uma sociedade, que seriam tomados como irrelevantes em determinadas abordagens do desenvolvimento, podem ser vetores essenciais, na medida em que promovem o fortalecimento do laços, a aproximação e a colaboração entre os indivíduos. Deste modo, por exemplo, a vivência em clubes sociais ou sindicatos pode, em determinada sociedade, se constituir uma variável a ser considerada na explicação do desenvolvimento.

4) Conclusão

No contexto de extrema e acirrada concorrência entre as empresas por mercados, a força da cooperação, como fator de competitividade e desenvolvimento local, vem sendo cada vez mais objeto de atenção por parte de gestores públicos, empresas e acadêmicos. Processos colaborativos podem fazer surgir um “capital social”, elemento de competitividade de empresas e regiões.

A execução de iniciativas conjuntas como o Guia de Compras Sampa e a Feira de Móveis na Rua Jurubatuba abrem a possibilidade que vão para além do próprio Guia e da Feira. Elas viabilizam a construção de uma Agenda de Trabalho, que pode se constituir em uma efetiva política de desenvolvimento local.

No caso específico das áreas comerciais, esta agenda pode estruturar-se em ações conjuntas para dar soluções a desafios concretos como a elaboração e implementação de plano de requalificação e embelezamento do centro; o desenvolvimento do e-commerce; a promoção conjunta das áreas em datas comemorativas; a viabilização de novas áreas de estacionamento; a capacitação gerencial e financeira dos lojistas; a apresentação visual de lojas; a qualificação de mão-de-obra, entre outras.

Jefferson José da Conceição é Prof. Dr. da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e Diretor Técnico da Agência São Paulo de Desenvolvimento – Adesampa. Foi Secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo de São Bernardo do Campo (jan. 2009/jul.2015) e Superintendente do SBCPrev (ago.2015/fev.2016).

Artigo publicado no site do ABCDMaior, coluna blogs, em 22 agosto 2016.

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